Manifesto · Saúde em Portugal

Uma Visão para a
Saúde em Portugal

Portugal deve pensar a saúde como um verdadeiro sistema — completo, integrado e coerente — e não como uma soma de instituições a competir entre si. A proposta é uma Rede Integrada de Saúde: une o SNS público de hoje e as parcerias público-privadas de nova geração, centradas em valor e em risco partilhado, e não no modelo 1.0 de concessão de hospitais. O serviço público concentra-se no essencial e indelegável, garantindo que todos os portugueses têm a saúde e o cuidado na doença de que precisam; recorre à capacidade privada apenas onde esta consegue unir a eficiência com a efetividade — partilhando o risco com o Estado, e sendo recompensada pelos resultados que conseguir entregar. Uma coisa é certa, o Estado não vai conseguir garantir tudo, para sempre, nem os privados são a solução se o serviço público implodir. A solução é defender o SNS, sem demonizar o privado, garantindo que se encontre um consenso que seja viável e saudável.

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A rede integrada Serviço Nacional de Saúde Grupos privados parceiros
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O Sistema

Rede Integrada de Saúde

Une dois prestadores complementares: o serviço público e os grupos privados parceiros.

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Prestador Público

Serviço Nacional de Saúde

O que o Estado garante diretamente, mais o modelo que o faz funcionar.

Áreas asseguradas
Cuidados de Saúde PrimáriosA base do sistema e a porta de entrada
UrgênciaResposta aguda, 24/7
InternamentoCamas de agudos
Consultas graves e específicasAlta complexidade
Oncologia para todosAcesso universal
Cuidados continuadosRecuperação pós-aguda
Geriatria e unidades de retaguardaDoente idoso, no nível certo
Cuidados paliativosDoença avançada e fim de vida
Prevenção e Saúde PúblicaO melhor valor por euro do sistema
Modelo de funcionamento
+Integração e ContinuidadeProcessos otimizados que ligam as redes num único contínuo, sem ruturas nas transições.
+Inteligência ArtificialGestão racional e eliminação de desperdício de tempo clínico, ECDs e terapêuticas.
+Recursos Humanos — Salário ModularO médico deixa de ganhar todos o mesmo; o SNS torna-se competitivo como empregador.
BaseCarência de especialidadeRisco da especialidadeApoio de outras especialidadesVolume da populaçãoNecessidade de urgênciaGarantia de escalaOutros
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Prestadores Parceiros

Grupos Privados Parceiros

Gestão delegada de áreas específicas, com resultados medidos em valor.

Modelo de parceria
Gestão de service linesLinhas de serviço delegadas
Avaliação em valorResultados sobre custo
Partilha de ganhosEficiência repartida
Bónus de performanceIndexado a PROM
Poupança para o EstadoSobre o custo evitável
Excedente reinvestidoA quota do Estado financia as áreas não rentáveis
A Arquitectura do Novo Sistema de Saúde Português

O RIS - como se governa

O conceito do RIS como um "sistema de saúde" não é uma expressão — é a verdadeira reforma. Hoje, a mesma entidade define a estratégia, paga, presta os cuidados e avalia-se a si própria. Separar estas funções, e dar ao conjunto um árbitro neutro, é a condição prévia de tudo o resto: sem isso, nem a contratação em valor nem a parceria justa com o privado são sequer possíveis.

Sistema ou serviço? — uma distinção, não um jogo de palavras

A confusão é real e tem consequências. Serviço é quem presta cuidados; sistema é o todo que os organiza, financia e fiscaliza. Quando a mesma sigla designa as duas coisas, ninguém sabe a quem pedir contas — nem o cidadão, nem o legislador, nem o tribunal. E a distinção nem sequer é nova: a própria Constituição a faz — garante o direito à saúde através de um serviço nacional de saúde, e comete ao Estado funções mais vastas de orientação e disciplina de todo o setor. A proposta não inventa a distinção; dá nome ao que a Constituição já distingue.

O risco a evitar é criar uma segunda sigla "SNS" a competir com a primeira. O Serviço Nacional de Saúde é a instituição pública mais respeitada do país: a sua marca não se mexe. Uma rede, ao contrário de um serviço, não precisa de marca — precisa de uma liderança cujo objetivo é criar a governação que faz tudo comunicar e tudo funcionar como um único todo. E a objeção previsível ("dar nome ao todo dilui o SNS") tem a resposta invertida: liberta-o. Deixa de se pedir ao SNS que seja tudo ao mesmo tempo — prestador, pagador, regulador e auditor de si próprio — para que seja excelente no que é: o prestador público em que o país confia.

Recomendação. O SNS — Serviço Nacional de Saúde mantém o nome e a sigla, com décadas de confiança pública. O todo passa a chamar-se Rede Integrada de Saúde — um nome que descreve o que o todo é (redes a funcionar como um único contínuo), em vez de competir com a marca SNS. O SNS é o pilar público da Rede Integrada de Saúde.

Quem governa o sistema — cinco funções, cinco titulares

São cinco funções, cada uma com titular claro — e com um marcador honesto de maturidade: quatro já existem em alguma forma (mantêm-se, reconfiguram-se ou reforçam-se); só uma é para criar de raiz. A reforma da governação é menos construção nova do que arrumação do que já cá está.

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Regra de ouro. Nenhuma entidade pode, ao mesmo tempo, prestar cuidados e pagá-los ou avaliá-los. Quem joga não apita.

02Compra e contrataçãoO motor do modeloExiste — reconfigura-se

Comprar saúde

A ACSS reconfigurada como agência nacional de contratação

Não é um órgão a criar de raiz. É a ACSS — Administração Central do Sistema de Saúde, hoje responsável pela metodologia de financiamento, redesenhada como comprador público único: detém o orçamento e compra saúde para cada população — por capitação e resultados, não por ato — contratando prestadores públicos e privados nas mesmas regras. Compra valor; nunca gere os hospitais que contrata. Mas, para o ser de facto e não apenas no nome, precisa de três mudanças.

Três condições
1
Separação total da DE-SNS

A Direção Executiva passa a ser apenas o coordenador da rede pública de prestação. Hoje co-assina os contratos-programa em representação dos hospitais — e o comprador nunca pode representar quem contrata.

2
Capacidade de strategic purchasing

Economia da saúde e desenho de contratos em valor — competências que a ACSS hoje não tem. Sem elas, contratar "em valor" é uma intenção sem instrumento.

3
Inteligência de compra regional

Recuperar a capacidade de compra à escala regional, perdida com a extinção das ARS. A compra ficou excessivamente centralizada e cega às diferenças entre territórios.

As outras quatro funções
01
Tutela e estratégia
Já existe — mantém-se

Definir o para quê

Ministério da Saúde

Fixa as metas de saúde da população e o cabaz de cuidados que a Rede Integrada de Saúde garante. Responde perante o Parlamento.

Define o rumo — não gere hospitais.

03
Regulação
Existe — reforça-se

Fixar e fazer cumprir as regras

ERS reforçada

Define padrões de qualidade, segurança e acesso. Licencia e fiscaliza todos os prestadores — públicos e privados — em pé de igualdade. Com o dente que hoje falta: sobre o prestador público, a sanção eficaz não é a multa (o Estado a multar-se a si próprio) — são consequências de gestão, até à substituição.

Independente da tutela e dos prestadores.

04
Prestação
Existe — ganha autonomia

Tratar os doentes

SNS + parceiros privados e sociais

Prestam efetivamente os cuidados. Os hospitais públicos com autonomia de gestão real, para competirem em condições justas. Organizados localmente em ULS.

Prestam — não se avaliam a si próprios.

05
Auditoria e arbitragem
A criar de raiz

Medir e arbitrar

Auditoria independente + arbitragem

Mede e certifica os resultados de que dependem os pagamentos; resolve disputas de forma rápida e especializada. É a única peça nova da governação — a arbitragem pode ancorar na arbitragem administrativa institucionalizada que já existe; a certificação independente de resultados é o que há mesmo que construir. Tribunal de Contas e Parlamento mantêm a fiscalização democrática.

Independente do comprador e do prestador — ambos teriam incentivo a falsear resultados.

Como a missão pública orienta todos — incentivos, não boa-fé

Um parceiro privado procura lucro; não se lhe pede que acredite na missão pública. Pede-se outra coisa, mais segura: que a Rede Integrada de Saúde seja desenhada para que cumprir a missão seja o único caminho rentável. A missão não se apela — engendra-se, através do contrato e do regulador. Seis mecanismos fazem-no:

1

Pagar por resultado, não por volume. A unidade de pagamento é a saúde de uma população — não o número de atos.

2

Universalidade no contrato — à entrada e à saída. O parceiro aceita todos os doentes referenciados, sem seleção, e fica com o episódio completo: as complicações são dele, não da urgência pública. Não escolhe quem entra, nem devolve o que corre mal.

3

Ajuste pelo risco. Paga-se mais pelo doente mais complexo — para ninguém ter incentivo a evitá-lo.

4

Medição independente. Os resultados (PROM, qualidade, acesso) são auditados por entidade independente do comprador e do prestador.

5

Consequência em escada. Falhar na missão trava o portão de qualidade (sem ganho partilhável), aciona a devolução do bónus e, persistindo, reverte o contrato para gestão pública.

6

Transparência total. Resultados, tempos de espera e reclamações de cada prestador são públicos — e comparáveis, pelos mesmos critérios, entre públicos e privados.

Este painel é o mapa, não o detalhe: cada mecanismo está desenvolvido, com a sua fundamentação e os seus riscos, nos blocos do pilar dos parceiros privados — universalidade e ajuste pelo risco nas cláusulas do contrato, medição na avaliação em valor, consequências na reversibilidade e na partilha de ganhos.

O que é mesmo preciso

Primeiro o árbitro, depois o jogo.

O que muda mesmo a saúde em Portugal não é mais dinheiro nem mais hospitais — é separar funções e dar ao sistema um árbitro neutro. E os marcadores acima tornam o diagnóstico concreto: das cinco funções, quatro já existem e arrumam-se; a única que falta construir é, precisamente, o árbitro. O caminho crítico de toda a reforma passa pela sua peça menos visível.

Por isso a governação é a primeira reforma — a única que torna todas as outras possíveis. E é também a mais duradoura: governos mudam de prioridades e orçamentos encolhem e crescem, mas funções separadas, com titulares e regras, ficam. Constrói-se uma vez, serve todas as legislaturas — é a melhor defesa do modelo contra o ciclo eleitoral que matou as parcerias 1.0.

Porque ter uma rede é melhor que ter um serviço como sistema nacional de saúde

As peças não funcionam isoladas

A prova de que isto é um sistema, e não uma lista de boas ideias soltas, é que as reformas se seguram umas às outras. Avançar com uma sem a sua par não é meia reforma — é uma reforma que falha. Estas são as costuras que importa apresentar sempre em conjunto.

Concorrência do hospital público pelos contratosAutonomia de gestão real

Pôr o hospital público a concorrer com o privado pelos contratos rentáveis é a ideia mais potente do modelo — e só é justa se o hospital tiver autonomia real para gerir orçamento, recrutar e incentivar as equipas. Sem autonomia, entra de mãos atadas e o privado vence por defeito. A concorrência sem autonomia não é competição: é uma entrega disfarçada.

Contratar em valorInfraestrutura de medição

A seta aponta nos dois sentidos. Num: não se contrata valor antes de o saber medir — a infraestrutura (contabilidade analítica, registos, auditoria) precede a primeira parceria. No outro, o que quase nunca se diz: medição sem uso contratual também morre — registos que não decidem pagamentos degradam-se em burocracia que ninguém alimenta. A sequência é medir primeiro; o compromisso é conjunto — constrói-se a medição já com o destino contratual anunciado, para que quem a preenche saiba que ela conta.

Abertura às parcerias privadasFinanciamento blindado das áreas nucleares

Abrir áreas rentáveis ao privado e blindar o financiamento das áreas deficitárias do serviço público são o contrapeso uma da outra. Avançar com a primeira sem a segunda descapitaliza o público; avançar com a segunda sem a primeira perde a fonte que a sustenta. O modelo dá a esta costura mecanismo próprio — o excedente reinvestido, que consigna os ganhos das parcerias às áreas deficitárias. São politicamente indissociáveis — e devem ser legisladas no mesmo ato.

Salário modular no públicoDelegação de service lines ao privado

Os dois pilares vão competir pelos mesmos médicos escassos: o privado recruta para as linhas que ganha, a carência pública sobe, o suplemento modular responde, o privado contra-responde — e o sistema entra em leilão consigo próprio, pagando duas vezes a mesma escassez. A mitigação tem três peças: planeamento conjunto de RH na ULS (o impacto nas escalas públicas avalia-se antes do contrato), transparência de remuneração total nos dois pilares, e a regra do comparador público, que garante massa crítica própria em cada especialidade. Se existir verdadeira escassez, esta ocorre transversal ao sistema de saúde inteiro — nenhum pilar a resolve a comprar os profissionais do outro.

Fundamentação

Enquadramento legal e exequibilidade

Antes do debate sobre o modelo, duas perguntas honestas: cabe na lei portuguesa? E é exequível, ou é uma utopia?

Cabe na lei? — em parte sim, e o resto está em movimento

O modelo não exige construir um quadro legal de raiz. Assenta numa trajetória legislativa que já está em curso — mas exige precisão sobre qual instrumento jurídico se usa. A Constituição garante o direito à proteção da saúde sobretudo através do SNS, mas não proíbe a participação privada: exige que o Estado se mantenha o garante. O ponto juridicamente sensível é a gestão delegada de estabelecimentos públicos — regulada pelo Decreto-Lei n.º 23/2020, de 22 de maio, que fixa as regras dos contratos de parceria de gestão na área da saúde — e é precisamente por isso que este modelo a evita por desenho: as service lines são prestadas nas instalações do próprio parceiro, no regime das convenções, um regime de contratação de produção juridicamente distinto da gestão delegada de um estabelecimento. Não é uma isenção jurídica garantida — é uma leitura defensável à luz de duas décadas de precedente nesse mesmo regime de convenções (SIGIC, hemodiálise), que a revisão da Lei de Bases deve clarificar em definitivo.

O que a lei já permite

  • A Lei de Bases da Saúde de 1990 previa o apoio a iniciativas privadas e sociais de saúde "em concorrência com o setor público". A Lei de Bases da Saúde de 2019 abandonou essa formulação e reforçou a primazia do SNS, admitindo contratos de parceria e gestão com privados apenas em situações supletivas e temporárias e mediante necessidade fundamentada — designadamente quando o SNS não disponha, comprovadamente, de capacidade para assegurar os cuidados em tempo útil.
  • O Estatuto do SNS (2022) criou a Direção Executiva do SNS — a estrutura de governação central já existe.
  • O Orçamento do Estado para 2026 autoriza o Governo a adjudicar novas PPP no SNS, por via de uma alteração introduzida na especialidade parlamentar — aprovada apesar do voto contra do PS e já promulgada. É uma autorização orçamental, sujeita a renovação em cada Orçamento, e não uma alteração estrutural da Lei de Bases da Saúde.
  • A contratualização da produção com privados (convenções, contratos-programa) é prática consolidada e legalmente pacífica.

O que seria preciso mudar

  • A revisão da Lei de Bases — já anunciada pelo Governo — teria de acolher parcerias por linha de serviço e baseadas em valor, distintas da PPP clássica de hospital inteiro e do contrato de parceria de gestão do Decreto-Lei n.º 23/2020 (pensado para a gestão delegada de um estabelecimento inteiro). Entretanto, o piloto avança já pelo regime das convenções — a partilha de risco e de ganhos e os gatilhos de reversibilidade são clausulados dentro desse contrato de convenção, ao abrigo do Código dos Contratos Públicos, sem esperar pela revisão legal.
  • Um regime contratual próprio para contratos de valor: resultados definidos, partilha de risco e de ganhos, e gatilhos de reversibilidade que o Código dos Contratos Públicos comporte.
  • Conformidade com o direito europeu: contratos desta escala caem nas diretivas de contratação pública, e a compensação a prestadores — incluindo hospitais públicos que concorram aos mesmos contratos — tem de respeitar as regras de auxílios de Estado (critérios Altmark / regime SIEG), sob pena de anulação e devolução.
  • Um quadro formal de regulação dos PROM e de auditoria independente de resultados — hoje inexistente.
  • Articulação com o financiamento por capitação e com a integração em ULS, para a delegação não fragmentar o percurso.
  • Revisão do Estatuto da Carreira Médica para acomodar o salário modular.

É uma utopia? — uma avaliação honesta

Já ficou visto que o modelo cabe na lei; o que falta avaliar é se é executável na prática. A resposta franca: não é uma utopia — mas é condicional. Cada peça já existe e funciona algures; o que pode falhar não é a ideia, é a sequência com que se constrói.

Porque é exequível

  • Nenhuma peça é inédita — e quase todas já funcionam em Portugal: pagamento por desempenho nas USF-B, linha completa por preço agregado na hemodiálise, transferência de doentes entre setores no SIGIC, PROM ICHOM medidos no IPO-Porto, remuneração diferenciada por território nos Açores.
  • O caminho legal já está aberto e em movimento — revisão da Lei de Bases e autorização orçamental para PPP.
  • A espinha dorsal da integração já existe: as ULS e o financiamento por capitação dão a base para tratar o sistema como um contínuo.
  • O setor privado português tem capacidade instalada real em áreas específicas — não é preciso construí-la.
  • O modelo não pede privatização: pede que o Estado contrate resultados onde isso lhe poupa dinheiro e mantenha o controlo do essencial.

Onde está o risco de utopia

  • O modelo 1.0 falhou sobretudo por assimetria de informação: o Estado não conseguia medir nem fiscalizar o que contratava.
  • Contratar "em valor" exige contabilidade analítica fiável e um custo público de referência — que o SNS historicamente não tem.
  • Sem PROM validados e auditoria independente, a partilha de ganhos premeia quem seleciona doentes fáceis, não quem trata melhor.
  • O salário modular depende de negociação sindical e de rever a carreira médica — politicamente pesado.
  • A fronteira público-privado é dos temas mais polarizados do país: um modelo que dependa de consenso duradouro é frágil a cada ciclo eleitoral. A mitigação é institucional — funções separadas, com titulares e regras, sobrevivem aos governos (ver "Primeiro o árbitro, depois o jogo").
Isto é mesmo possível?

O futuro pode ser diferente e melhor, se for executado da maneira certa.

E se houver vontade de mudar: de acreditar no SNS sem esquecer que os privados existem, e de aceitar que o SNS sozinho não poderá continuar como hoje o conhecemos.

O erro utópico seria lançar as parcerias antes de o Estado saber medir valor. A ordem correta é a inversa: primeiro construir a infraestrutura de medição — contabilidade analítica, registos de resultados, capacidade de fiscalização — e só depois contratar em valor e partilhar risco.

Feita por esta ordem, a proposta não é uma utopia: é uma reforma de engenharia institucional. Feita ao contrário, repete o modelo 1.0 com outro nome. O ponto frágil não é a ideia — é a paciência institucional para construir o que é aborrecido antes do que é vistoso.

E a ordem certa já tem primeiro capítulo concreto neste documento: o piloto de uma única linha — implementado no regime das convenções, sem gestão delegada do estabelecimento — com custo evitável publicado antes do concurso, medição ICHOM, episódio completo, ganhos certificados e excedente consignado, que prova o modelo inteiro em miniatura antes de o generalizar.

Não se pede ao país que acredite cegamente; pede-se que deixe que seja possível demonstrá-lo.

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